Fórum Fraternal 2018 – “Eu Vi” – Por Vanessa Aragão

19 mar

Fórum Fraternal 2018 – “Eu Vi” – Por Vanessa Aragão

Um lindo relato sobre o Fórum Social Mundial 2018, realizado em Salvador – Bahia entre 13 e 17 de Março.

 

Foi isso que senti todos os dias em que pisei na Ufba/Ondina, que era um dos locais em que o Fórum Social Mundial 2018 estava acontecendo. Fraternidade é a palavra que melhor consigo definir o que vi, ouvi, senti. Participei como monitora do Fórum pela Pró-Reitoria de Extensão (PROEXT/UFBA), organizadora do Fórum dentro da universidade que, com apenas uma média de 12 profissionais, desempenharam esta função, além de uma média de quase 500 monitores. Dentre estes estava yo. Fiquei trabalhando com o pessoal da Assessoria de Imprensa, fazendo filmagens e fotografando. Durante a pré-produção, visitei outros campus da Ufba para verificação de equipamentos nas salas onde aconteceriam apresentações.

Pois bem, desde a semana anterior a do evento, com a arrumação das estruturas das tendas, sentia um clima diferente na universidade. Vivo dia e noite naquela ali e nunca tinha visto algo parecido. O preparar a casa é super importante. Ainda mais a casa pra receber o “mundo”. Uma amiga estava trabalhando nesta pré-produção e ficava doida porque as coisas não estavam tão bem-organizadas nesse sentido e tudo mudava a toda hora. Check it. Um evento grandioso com 112 páginas de programação não é fácil de se fazer. Eu disse a ela pra relaxar, fazer o melhor dela, que ali era assim mesmo, que tudo correria bem. Assim o foi. Sendo assim, vou contar sobre as coisas que me causaram mais impacto, que vi, senti e ouvi.

Assim que cheguei na universidade no primeiro dia, já vi aquele mundo de gente circulando por Ondina. Gente diferente, com malas, com aquele clima de confraternização e descoberta. Senti esse cheiro no ar. Fui para a Marcha das Mulheres no Campo Grande e comecei a ver bandeiras de outros países, pessoas vestidas diferentes, nossos queridos índios, manifestações, gritos, danças, cartazes. Os laços estavam começando ali. Vi uma roda de índios dançando, e depois uma roda de mulheres cantarolando “eu vi mamãe Oxum na cachoeira”… Paralisei e pensei: “Meu Deus, o que está acontecendo aqui?”, é algo maior do que poderia imaginar.

  

Nunca participei de um Fórum Mundial, não sabia como era. Encontrei pessoas queridas durante o percusso, vi um casal de professores (Marise e Umbelino) e veio a sensação de: “Que eu seja sempre como eles e não perca essa ternura e vivacidade de participar de um evento assim, não importa quanto anos eu tenha, o quanto eu já tenha visto de mundo”. Fotografei, vi senhorinhas que já não tinham a melhor condição motora, mas que estavam ali, falando “Fora Temer” ou defendendo a mulher na sociedade. Também desejei ser uma delas fututamente. Ouvi também de um homem aleatório que provavelmente não sabia o que estava fazendo ali: “E mulher comunista namora?”. Nem olhei pra cara do sujeito, me afastei.

Vi tendas enormes lotadas de gente. Da CUT, dos Direitos Humanos, de Psicologia e Democracia. Vi muitas mulheres falando, tendo a liderança, engajadas, ferozes, defendendo o que acredita; pessoas que estão nessa luta há anos, pessoas na plateia que estão participando pela primeira vez. Vi personagens que ficaram marcados até o final: o velhinho de olhos claros que usava chapéu de palha e andava para lá e para cá com sua cruz de madeira. Vi mulçumanas, indianas, franceses, africanos…

A cada dia que passava via a Biblioteca Central da Ufba mais cheia, com gente se inscrevendo e pegando seu kit. Observava tudo aquilo como um mosquitinho,um ser que sobrevoava um novo território, maravilhada com tudo aquilo. Vi Dilma e Suplicy discurssando. Vi um debate de um nível excepcional tanto de palestrantes – Elisa Larkin Nascimento, Ordep Serra e Kabengelê Munanga (USP) e Cassia Maciel (PROAE/UFBA) – assim como do público presente sobre as Cotas Raciais e acolhimento do aluno. Vi gente gentil, perguntando e dando informações. Alunos da universidade que estavam trabalhando solícitos com tudo, felizes de estar fazendo parte de tudo aquilo. Ouvi muita música e criação de artes ali nos espaços verdes. O morrinho da Praça das Artes cheio to-dos os dias e horas.

Falei com amigos queridos que também estavam engajados em algo por lá, encontrei colegas da minha graduação e de outros lugares da vida. Amigas que moram em outras cidades comentando que estavam adorando acompanhar o Fórum com as minhas postagens nas redes sociais. Isso me deu fôlego para mantê-las. Vi uma conexão maior do que poderia esperar.

No dia que foi divulgada a morte da vereadora Marielle Franco, senti e vi uma lástima abrupta em cada ser humano que pisava naquele ambiente. Participei de uma meditação no início da manhã por ela, vi uma marcha percussiva com os gritos de “Marielle, presente”. Foi uma comoção generalizada. Parecia uma derrota de tudo que estávamos fazendo ali. Mas pareceu também que criou uma liga ainda maior com todos. Doido de explicar… mas foi.

Filmei um papo com Luiz Gonzaga de Souza Lima, um professor doutor-mother-fucker do mundo sentado na Geodésica (aquela obra de arte geométrica atrás do RU) de sandálias havaianas e roupas à vontade falando sobre seu livro “A refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada”, de forma seguramente simples e consciente das questões do nosso país. Ele disse que o Fórum servia pra pensar e criar um mundo novo.

Eis que apareceu o “x” da questão. Era isso. As pessoas que estavam ali criam e transformam o mundo a cada dia. São mudanças em forma de “gentes”, de ideias, de participação. São ativos. São a marcha de não-manobra nesse mundo cão. São os que já fazem diferente, só por estarem ali. Pronto, entendi. Fiquei aliviada. “Já fazem diferente”. “Uma pessoa me perguntou: não entendo pra que serve isso, se não muda nada de verdade”. Não muda pra quem? Agir minimamente em algo que atinja um mínimo coletivo, já é mudar, já é transformar realidades, já é mudar o mundo, nem que seja de 3 ou 10 pessoas. É mudar o mundo de alguém ou “alguéns”. E toda mudança verdadeira, é recíproca.

Vi pessoas cuidando das outras, mostrando o real sentido da saúde. Uma freirinha fazendo ventosaterapia; descobri que tinha uma programação to-da feita pela Liga Acadêmica de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde da Ufba. Não acreditei quando recebi de outro monitor aquele folheto. Eu estava na minha verdadeira casa. Era um cosmo de bem-querer, bem-cuidar, bem-trocar, bem-viver.

Presenciei professores da Ufba, que fizeram uma ACCS baseada no Forúm Social, mostrando o que é a essência de um professor: ter batalhado para que toda a disciplina desse certo com a vivência com uma tribo e depois demonstraram suas criações na Praça das Artes. Vi o sorriso da professora vendo os alunos se apresentando, numa ciranda. Nunca mais esquecerei dele.Fui na Feira Agroecológica da Ufba que estava acontecendo normalmente lá. Comprei verduras e cogumelos baratos e ótimos (pra uma vegetariana isso é vital, e pagar R$ 10 ao invés de R$ 21 é pura alegria). Encontrei mais amigos queridos e conversamos sobre como a universidade parecia que se agingantou ainda mais, mostrou toda sua potência, como deve ser o papel das universidades. Fluxos intensos de causas, mudanças e conhecimentos mundiais. Vi o reitor João Carlos Salles algumas vezes por lá, sempre com sorriso no rosto. Ouvi comentários de que “realmente, esse cara saber fazer as coisas que potencializam a universidade”. Levei meus pais para verem e sentirem um pouco daquilo tudo lá. Era necessário sentir aquilo, em tempos de pouca fé na humanidade, nas conjunturas políticas, nas mudanças coletivas.

Acendi uma vela pela paz na Palestina, dada por um membro que estava organizando esse ato. Vi os hippies da Ufba vendendo seus artesanatos e pedindo abraços para quem passava. Ouvi um jazz no final de tarde, vi danças circulares em torno do café do PAF V. Vi uma equipe feliz que estava morta de cansada nos bastidores, mas que se divertiam nas pequenas coisas. Vi muita gentileza.

 

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Senti um turbilhão de sensações. A esperança que estava murcha, colocada de canto em relação às forças coletivas, começou a brotar novamente. E cresceu durante esses dias. Isso me trouxe novas perspectivas, visão de mundo, me fez acreditar novamente. O coletivo é que move tudo. E são essas conexões, coligações, laços e esse nivel de vibração harmônica que nos faz resistir a todas as mazelas cotidianas, é que tranforma. Isso é sinergia, também física quântica.

Apesar dos últimos acontecimentos, minha fé foi renovada. Essa última semana foi realmente um divisor de águas em muitas coisas. Não voltemos atrás. Que assim seja.

 

Vanessa Aragão é Jornalista, apresentadora e estudante de Bi de Artes pela UFBA. Além disso, é envolvida com produções artísticas pelo coletivo Tropical Baiana e com projetos independentes. Por fim, não menos importante, é nossa amiga de energia maravilhosa. =)

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